Futuro em cinza

Orquídeas são as rainhas do jardim, sem dúvida. Suas flores exóticas são muito procuradas, colecionadas, vendidas. Aficionados estão sempre de olho aberto para novas espécies. São artigos de comércio.  Também fazem parte da nossa natureza. Fazem parte de Tapuio e servem como fonte de alimentação para abelhas, mariposas, beija-flores, e vários outros bichos, além de enfeitar as árvores. Certas orquídeas são robustas e conseguem se adaptar a condições muito variadas. Outras, geralmente as de lugares mais frios e altos, são mais exigentes e se levadas para terras mais baixas e quentes, podem morrer, raramente dão flor.

Uns meses atrás, alguém furtou a última espécie dessa orquídea em Tapuio. E três semanas atrás, furtaram outra orquídea de folha larga (folha larga geralmente indica flor grande) da minha casa.

Muitas vezes são os fiéis que sobem ao Cruzeiro para rezar. Ao descer, levam tudo que tiver de interessante: fruta, roupa no varal, orquídeas, e “pagam” com o lixo que deixam. Mas os furtos das orquídeas não coincidiam com nenhuma procissão de fiéis.

Ontem fiquei sabendo de um rapaz que está levando colecionadores para catar orquídeas em Tapuio. Leva as pessoas entre semana quando estou aqui na cidade. Eu conheço o rapaz. É um menino simples, vocês diriam humilde, que só quer ter a oportunidade de conseguir mais (material) na vida. Não estuda. Acha burrice. Dinheiro fácil se encontra na exploração da natureza. Leva pessoas para caçar, para pegar passarinhos, para tirar orquídeas. Sempre tem um mercado.

O problema não é o caçador. É você, o consumidor. É quem aceita uma paca como pagamento de dívida, quem compra o passarinho, quem compra a orquídea.  Se não pagasse, ninguém faria.

Este verão tem manga em Tapuio. Nem todo ano tem. A fruta cai e apodrece. Sabe o que significa?

Em Outubro e Novembro, meninos enchiam a mata pegando passarinhos para suplementar seu salários de merda, salários ruins porque não sabem fazer nada. Eles não acham necessário estudar. Se quiser dinheiro, é só pegar um passarinho. Só matar uma paca. Só vender uma orquídea. Sempre tem cliente.

Mas nem sempre vai ter a natureza.

Acho engraçado como o brasileiro tem vergonha de comer com as mãos. Não quer sujar as mãos. Tudo se come com garfo ou palito ou mil guardanapos. Mas não sente vergonha em destruir a natureza. Não sente vergonha em deixar o futuro cinza, sem cor, sem graça.

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