Já incomodou alguém hoje?

Estou aqui no centro de Iconha no apartamento que alugo para dar aula esperando alunos fantasmas, fantasmas porque é verão, o final do ano, e ninguém quer estudar.

O sol está brilhando pela primeira vez faz 3 semanas!

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Como meus alunos não aparecem hoje, decidi atender a uns trabalhos que tinha deixado de lado. Quando trabalho, trabalho concentrado e barulho me distrai, tirando a concentração.

Atrás de mim, um rapaz também está trabalhando. Ele é o contrário de mim. Adora barulho, quanto mais alto melhor. Neste momento, tem a música funk reverberando, ecoando, causando tremer até as paredes e vidros das janelas.

Eu disse que é música funk, mas o tipo de música não importa. Pode ser até música que gosto; ainda acho absurdo estar obrigado a ouvir um som simplesmente porque outro decidiu que todos têm que ouvir. Odeio a ideia de se impor nos outros.

Não é a primeira vez que faz. Já reclamei.

Ele acha que está no direito dele, pois está na propriedade dele. Como se o som respeitasse  divisas.

A verdade é que ele quer que os outros ouçam. Ele quer se mostrar, quer incomodar. Hoje no Brasil, ninguém fala mais aquela velha frase: Você sabe com quem está falando? Num Brasil mais rico, aquilo não significa nada. Hoje, a pessoa mostra a sua importância no grau que é capaz de incomodar a vida de outro.

As pessoas até confundem e chamam isso de liberdade de expressão. Quem reclama está errado, um zangão, intolerante.

Mesmo assim, eu reclamo. E ninguém liga. Me chamam de mal humorado.

Outros reclamam também.

E parei para observar: Os outros que reclamam também são bem longe de serem inocentes. Não gostam de ser incomodados, mas não têm problema nenhum em incomodar.

Moro no primeiro andar e vivo aguentando uma chuva de lixo, água suja, toco de cigarro, tudo jogado das janelas e varandas de cima como se toda a área em baixo fosse lixeira. Eles até cospem para baixo, tudo caindo em volta da minha varanda. Em outras palavras, além do barulho, tenho que aguentar o lixo das pessoas também incomodadas pelo barulho, mas inconscientes de como também incomodam, desligadas das pessoas e vidas em volta.

Ando nas calçadas e vejo a mesma situação em toda parte. Raramente saio, pois andar nas calçadas de Iconha não tem graça. Me vão desculpar, mas é a verdade. Corro para chegar aonde vou, e corro para voltar. É um inferno. Carretas e caminhões buzinando constantemente com aquelas buzinas de alta frequência que danificam a audição. Carros e motos a caminhões que passam e voam num caos quase total, colocando em risco a vida de qualquer pedestre que tenta atravessar.

Andar na calçada é quase impossível. Pessoas entram e saem das lojas sem prestar a menor atenção ao movimento de pessoas na calçada. Nem olham para ver se alguém vem ou não, simplesmente saem. É como se cada um pensasse que ele é o importante e é a tarefa do outro a prestar atenção.

Incomodar para não ser incomodado.

As calçadas de Iconha são muito estreitas. Mesmo assim, as pessoas andam justamente no meio da calçada, completamente indiferentes aos outros pedestres. Pior ainda, andam com uma lentidão torturante. Bom, não é tanto andar senão perambular pela calçada, primeiro para lá, depois para cá,  impossibilitando passar, obrigando qualquer outro na calçada a andar atrás, lento, à velocidade de tartaruga. Quem quiser passar deve descer da calçada para a rua para andar com os carros. Aí, o perigo é duplo: os motoristas não consideram a humanidade do pedestre, e ao passar a pessoa na calçada é capaz de jogar lixo em você ou pior, cuspir sem nem olhar para ver se tem gente em volta. Sei que acontece. Já aconteceu comigo.

Mesmo assim, às vezes andar na rua é o único jeito. Os comerciantes, os moradores, e até a própria Prefeitura só lavam varandas e calçadas depois das 8 da manhã, quando tem mais gente nas calçadas.

Água cai das varandas, água escorre pelas calçadas, água respinga das ruas quando carros passam. A Prefeitura só lava a subida da igreja por volta das 10 da manhã e aquele trecho de calçada molhado com água e sabão é escorregadio, perigoso. Só dá para andar na rua mesmo.

(Nem mencionei as pessoas que se agrupam para conversar no meio das calçadas, sem dar passo aos outros, impedindo completamente o fluxo de pedestres.)

Raiva, ódio, amor, paixão, carinho, amizade, são todas coisas que entendo.

Indiferença eu não entendo. Indiferença ao bem estar do seu vizinho, indiferença à pessoa a seu lado, que seja seu vizinho ou a pessoa andando na calçado, eu não entendo. Incomodar, infernizar, só porque pode, só para mostrar que você é importante, é medíocre. Não considerar como seus atos afetam os outros é marca de subdesenvolvimento.

Quer uma sociedade, uma cidade, melhor, como vivem dizendo? Comece consigo mesmo. Leve em consideração como seus atos afetam os outros antes de agir.

Pense!

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