The Road Home

Morando aqui em Tapuio todos esses anos, já vi tantas coisas interessantes. Já vi lagartos de quase dois metros andando na estrada. Iraras e cachorros do mato e tamanduás também aproveitam da estrada. Uma vez três quatis saíram do café para andar a meu lado. E uma tarde, assisti a migração de milhares e milhares de pequenas borboletas amarelas.

Também já vi bastante coisa desagradável. Os restos de animais silvestres jogados na estrada como lixo. Latas de cerveja e garrafinhas de água e maços de cigarro e outras formas de lixo descartado por trilheiros e trabalhadores e os que vão para rezar no Cruzeiro.
Uns respeitam o ambiente. Outros não.
Os trilheiros geralmente fazem parte da segunda categoria. Eles vêm em grupos de 5, 10, 20, 30 enchendo o ar com seu barulho e poeira e destruindo a estrada, seguros na certeza que têm todo direito de fazer o que bem querem porque pagam seus impostos.
Pelo menos é esse o argumento deles.
Da primeira categoria, os que respeitam o ambiente, encontramos os ciclistas, esses aventureiros corajosos com pernas de ferro que passam aqui pela estrada de Tapuio. Sempre havia uns raros indivíduos de vez em quando pedalando por aqui. Agora que o ciclismo virou moda, o passatempo da elite, a presença de ciclistas aqui em Tapuio tem aumentado.
Eu sempre via a diferença entre os trilheiros e os ciclistas como a diferença entre dia e noite. Os trilheiros faltam respeito. Os ciclistas não faltam respeito.
Percebi que quanto mais popular fica o esporte, quanto mais os ciclistas e os trilheiros se parecem. Até o trilheiro que achou direito dele de me agredir agora virou ciclista.
Hoje um grupo vinha do lado do Cruzeiro. Eu sabia que vinha pelos gritos. Nos últimos meses muitos ciclistas têm passado aqui gritando como demônios.
Se eu ficasse ao lado da casa deles gritando como eles fazem aqui, não duvido que chamariam a polícia. Por que acham que aqui nós não merecemos o mesmo respeito? Eu moro aqui, longe da cidade, porque não quero esse barulho e essa confusão. Pedir que tenham consciência é pedir demais?
Pararam ao lado da minha casa falando alto. Falaram da necessidade da prefeitura vir aqui para passar máquina. Engraçado. De 2008 até 2016, a prefeitura não achou interessante manter a estrada. Imploramos e a resposta sempre foi que as máquinas estão quebradas ou estão em Inhaúma (foi a desculpa de preferência durante muitos anos) ou que as máquinas não conseguem subir. O ano passado, ano de eleição, as máquinas encontraram o caminho e conseguiram subir não só uma vez senão duas! Isso foi antes da eleição, é claro.
Durante todos esses anos, fui obrigado a subir de moto numa estrada que nem gambá usava mais. Eu caía tanto que minha moto virou lixo. Gastei uma fortuna em consertos. Parece que a nossa voz, a voz dos moradores e trabalhadores de Tapuio, não tem importância.
Será que a voz desses ciclistas vale mais?
Para dizer a verdade, nem quero mais uma estrada melhor. Quem sabe, uma estrada ruim serve para desencorajar um povo mal-educado, egoísta, e mal comportado.

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